Fricções e memórias: mostras de Lais Myrrha e Helô Sanvoy ocupam a Cerrado Cultural, em Brasília
Com curadorias de Ana Avelar e Divino Sobral, as exposições Arquiteturas do Poder e Eiro propõem um olhar sobre estruturas históricas, sociais e simbólicas do país.
Em cartaz até 9 de maio, na Cerrado Cultural, em Brasília, as exposições Arquiteturas do Poder, de Lais Myrrha, e Eiro, de Helô Sanvoy, ocupam simultaneamente os dois pavimentos da galeria. Embora independentes, as mostras estabelecem aproximações ao abordar, por diferentes caminhos, relações entre memória, trabalho e poder que atravessam a formação do Brasil.
Sob curadorias de Ana Avelar e Divino Sobral, os percursos expositivos evidenciam investigações que, ainda que distintas em materiais e procedimentos, convergem em suas temáticas. A articulação entre as mostras ressalta questões ligadas a apagamentos históricos, processos de construção simbólica e dinâmicas sociais que permanecem em disputa.
No térreo, Lais Myrrha apresenta Arquiteturas do Poder, com curadoria de Ana Avelar. A artista desenvolve uma pesquisa voltada às relações entre espaço, arquitetura e poder, tomando Brasília como ponto de partida para refletir sobre a construção de um projeto de Estado associado a ideais de racionalidade, universalidade e permanência, e tensionando as desigualdades que atravessam esse processo.
Sem recusar o legado modernista, sua prática evidencia aspectos frequentemente invisibilizados nas narrativas arquitetônicas, como o trabalho envolvido na construção da cidade e as camadas históricas que a constituem. Em séries como Estudo de Caso: Kama Sutra e Dupla Exposição, edifícios modernistas são sobrepostos a imagens históricas de Debret e Portinari, enquanto, em Vertebral Case, fragmentos de colunas de concreto dispostos como ruínas evocam a dimensão física e simbólica dessas estruturas.
No piso superior, Eiro, de Helô Sanvoy, com curadoria de Divino Sobral, marca a primeira exposição individual do artista na galeria. Sua pesquisa articula desenho, objeto e instalação a partir das dimensões materiais e sociais do trabalho, mobilizando elementos como carvão, pó de pau-brasil, vidro estilhaçado, couro e copos americanos.
O título faz referência ao sufixo “-eiro”, presente em diversas profissões e também na origem do gentílico “brasileiro”, ligado à exploração do pau-brasil. A partir desse ponto, o artista constrói obras que tensionam relações entre trabalho, corpo e estrutura social. Em Lucidez difusa, o uso de vidro temperado estilhaçado evidencia tensões materiais e visuais, enquanto, em Continente, a instalação com copos empilhados explora equilíbrio, repetição e fragilidade.
Serviço
O ser da pedra, de Paulo Pires
Vão, de Mateus Dutra
Curadoria: Divino Sobral e Débora Duarte
Em cartaz até 9 de maio de 2026
Cerrado Cultural
SHIS QI 05, Chácara 10, Lago Sul, Brasília/DF
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 13h
Entrada gratuita