Cerrado Cultural aproxima diferentes olhares em exposições de Alfredo Volpi e Kuenan Mayu.
As exposições colocam em diálogo a construção da linguagem pictórica de um dos grandes nomes da arte brasileira e a cosmovisão indígena de uma artista Magüta (Tikuna) e Tariana. Há muitos modos de olhar para um lugar. Pode ser pela paisagem que se apresenta diante dos olhos, pela memória que transforma aquilo que foi vivido ou ainda por uma compreensão de mundo em que humanos, animais, plantas e espíritos não estão separados. A partir dessas diferentes possibilidades de perceber e construir imagens, a Cerrado Cultural reúne duas exposições que, embora partam de universos muito distintos, têm no olhar e na transformação seus pontos de encontro: Alfredo Volpi – Os lugares do olhar, com curadoria de Cinara Barbosa, e Tawemücü Pu’tchi, da artista indígena Kuenan Mayu, com curadoria de Mandú.
De um lado, cerca de 25 telas (muitas delas inéditas para o público) revisitam o mundo próximo de Volpi, as paisagens, os casarios e as cenas populares e, ao longo de décadas, transforma aquilo que observa em cor, forma, ritmo e superfície. De outro, 16 obras de Kuenan Mayu evocam parte dos saberes ancestrais Magüta e Tariana e desenvolve uma produção em que desejo, espiritualidade, memória e corporalidade se entrelaçam, aproximando seres humanos, animais, plantas e seres encantados. As mostras abrem simultaneamente ao público no dia 17 de outubro, sábado, das 11h às 14h. Visitação até 13 de novembro, de segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 13h. A Cerrado Cultural fica na SHIS QI 05 Chácara 10, Lago Sul, Brasília. Mais informações: @cerrado.galeria e www.cerradogaleria.art.
Alfredo Volpi e os lugares construídos pelo olhar
Em Alfredo Volpi – Os lugares do olhar, a curadora Cinara Barbosa acompanha as transformações do modo como o artista construiu suas imagens ao longo de uma trajetória que atravessa praticamente todo o século XX. O conjunto reúne obras realizadas entre as décadas de 1920 e 1980 e permite perceber um percurso que começa na observação direta e, gradualmente, passa pela memória, pela imaginação e pela própria investigação dos elementos da pintura. Nascido em Lucca, na Itália, em 1896, Volpi chegou ao Brasil ainda criança e viveu praticamente toda a vida em São Paulo. Antes de se consolidar como artista, trabalhou como marceneiro, entalhador, encadernador e pintor-decorador, ofícios que ajudaram a estabelecer sua relação particular com a matéria e com o fazer. Autodidata, iniciou sua trajetória artística por volta de 1920, experimentando paisagens, marinhas e cenas do cotidiano a partir da observação direta. Um momento decisivo viria em Itanhaém, no litoral paulista, onde encontrou um novo campo de observação. A paisagem e, sobretudo, a relação com a luz daquele território marcaram as transformações em sua pintura. É nesse trânsito entre observar e reelaborar que a exposição concentra seu interesse: casarios, figuras em contraluz, relevos enviesados e frontões triangulares deixam de ser apenas elementos reconhecíveis e passam a se converter em problemas de luz, cor, linha, forma, ritmo e superfície. A matéria se torna um aspecto fundamental nesse processo. Volpi explorou diferentes técnicas, entre elas a pintura a óleo, na qual investigava brilho, transparência e fusão entre os tons, e a têmpera, de superfície mais seca e opaca, cuja preparação artesanal desenvolvia pessoalmente. O vestígio do trabalho manual permanece visível na pincelada, nos contornos irregulares e nos campos de cor. É nesse percurso que surgem alguns dos elementos mais conhecidos de sua produção. As bandeirinhas revelam as festas populares; as fachadas, a experiência das cidades e dos povoados do interior brasileiro. Mas, em Volpi, esses elementos deixam de funcionar apenas como representação e são reorganizados em relações de cor, forma e ritmo. A mostra se propõe a acompanhar essa transformação, em que a experiência vivida passa a ser incorporada à memória e depois reimaginada pela pintura, sem estabelecer uma passagem linear da figuração à abstração. É o que está por trás da ideia de “complexidade do simples”, uma elaboração sofisticada construída a partir de elementos singelos. Em Brasília, a trajetória de Volpi remonta aos primeiros anos da capital. O artista realizou o mural da Capela Nossa Senhora de Fátima, na 307/308 Sul, apagado em 1962, em um contexto de incompreensão sobre sua importância. Mais de quatro décadas depois de sua última exposição individual na capital, realizada em 1980, na Galeria Oswald Goeldi, da Funarte, Os lugares do olhar propõe uma nova aproximação com sua produção e com os diferentes caminhos que construíram seu olhar.
Uma lua que se transforma
Artista Magüta (Tikuna) e Tariana, Kuenan desenvolve uma produção atravessada pelos saberes ancestrais, pela espiritualidade e por uma compreensão da existência como ciclo contínuo de nascimento, transformação e encantamento. Em seus trabalhos, seres vegetais, humanos, não humanos e espirituais coexistem em um universo marcado pela transformação e por estados de passagem. O título da exposição faz referência à ideia de passagem. Ao se tornar lua, deixa-se de ser gente. Esse movimento é apresentado como algo natural para um povo que, em sua origem, foi pescado. Tawemücü Pu’tchi reúne 16 obras, apresentadas pela primeira vez em Brasília, e nasce do diálogo entre duas séries da artista, Eware e Pu’tchi, com curadoria de Mandú. Eware fundamenta a visão de mundo Magüta e é o lugar para onde se retorna depois do encantamento, território em que seres vegetais, humanos, não humanos e espirituais coexistem. A série remete à história de Ngutapa e Mapana e à origem de um povo, quando os joelhos de Ngutapa explodem e deles nascem dois filhos. Depois, Yo’í pesca um povo inteiro das águas sagradas do rio. Em Pu’tchi, o percurso se desloca para as subjetividades e corporalidades nomeadas como “dois espíritos”, expressão que não encontra tradução direta para o português e que pode ser aproximada, com ressalvas, da palavra “bicha”. É nesse espaço de transição que Kuenan constrói as obras da exposição. Desejo, espírito e ancestralidade aparecem conectados a corpos, árvores, peixes e encantados, em um universo organizado não pela separabilidade, mas pela transformação infinita e interespecífica. A materialidade das obras parte da entrecasca sagrada do Ngõ’e, o tururi, que funciona como um receptáculo espiritual. A artista utiliza pigmentos como urucum, jenipapo e pacová, em uma técnica aprendida através da observação de suas anciãs. Suas cores se modificam com o tempo, em um processo similar ao corpo em permanente mutação. A lua ocupa lugar central na série e também orienta a extração do tururi, que deve ser retirado apenas em sua fase cheia. Nas obras, aparece inicialmente separada do sol e depois se une a ele, culminando em uma espécie de eclipse. “Uma lua bicha”, Tawemücü Pu’tchi na língua materna. A junção dos elementos articula o divino e o sexual em imagens de transição, naturais e espirituais, em um estado de passagem que se move entre tempos e mundos.
Os artistas
Alfredo Volpi nasceu em 14 de abril de 1896, em Lucca, Itália, e chegou ao Brasil ainda criança, fixando-se em São Paulo. De formação essencialmente autodidata, trabalhou como marceneiro, entalhador, encadernador e pintor-decorador, aproximou-se do Grupo Santa Helena e integrou a Família Artística Paulista. Participou de cinco edições da Bienal de Veneza e seis da Bienal de São Paulo, recebeu, ao lado de Di Cavalcanti, o prêmio de Melhor Pintor Nacional na II Bienal de São Paulo, em 1953, e realizou importantes individuais no MAM-RJ e MAM-SP. Em Brasília, sua última exposição individual ocorreu em 1980, na Galeria Oswald Goeldi, da Funarte. Em 2024, o Centro per l’Arte Contemporanea Luigi Pecci, na Itália, realizou a retrospectiva Alfredo Volpi: Lucca–São Paulo (1896–1988), reunindo mais de 70 obras.
Kuenan Mayu é artista indígena Magüta (Tikuna) e Tariana, nascida no território indígena Tikuna Feijoal, no Amazonas. Sua produção transita entre pintura, instalação, performance e oralidade, investigando modos de existência e espiritualidade a partir de saberes tradicionais e de materialidades vivas da floresta, como o tururi. Entre suas exposições recentes estão o 39º Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP; a 1ª Trienal ARTCUT, no MAVI, em Santiago; e Riverlines, na David Nolan Gallery, em Nova York. Sua obra integra coleções do Museu das Culturas Indígenas, em São Paulo; do MAVI UC, em Santiago; e da Pinacoteca do Estado do Ceará.
Curadorias
Cinara Barbosa é curadora, pesquisadora de arte contemporânea brasileira e professora adjunta do Departamento de Artes Visuais da UnB. Idealizadora e coordenadora do Plano das Artes, pesquisa revisitações críticas à história da arte, poéticas arquivísticas, coleção e memória. Entre suas curadorias recentes estão Planteio, de Emilliano Freitas; Dípticos – Arte e Curadoria, com Léo Tavares; Geografias Brasilienses; O Brasil das Florestas – 20 anos do Serviço Florestal Brasileiro; Tessituras sobre o Chão e Você é luz, é raio, estrela e luar. Ganhou o Prêmio Bolsa Funarte de Estímulo à Produção Crítica em Artes Visuais, em 2010. Mandú, artista com atuação nos campos da pesquisa, educação e curadoria. É formado em Artes Visuais, com ênfase em Escultura, pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, atualmente, é mestrando bolsista CAPES no Programa de Pós-Graduação em Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na linha de pesquisa Arte, Imagem e Escrita. Em sua prática curatorial, fundamentada no princípio da construção colaborativa, busca materializar, por meio de palavras e ambiências, espaços perecíveis de fabulação e experimentação, tendo o encontro e a afetação como atos fundamentais. Colaborou com instituições e galerias como ABC-Arte Genova, Galeria Arrecife, Museu do Pontal, Solar dos Abacaxis, Sesc Quitandinha, Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Parque Lage e Escola de Belas Artes, entre outras. Divino Sobral, curador adjunto, completam a equipe da mostra. Artista visual, pesquisador, crítico e curador independente, Sobral nasceu em Goiânia, em 1966, e é uma das figuras de destaque na pesquisa e difusão da arte contemporânea no Centro-Oeste. Diretor artístico da Cerrado Galeria, desenvolve produção crítica e artística que transita por desenho, pintura, objetos, instalações e performance, além de manter atuação contínua na formação de novos circuitos para as artes visuais na região.
Sobre a Cerrado Galeria
Com sedes em Brasília e Goiânia, a Cerrado Galeria atua na descentralização do mercado de arte e na valorização da produção do Centro-Oeste. Inaugurada em 2023, desenvolve um programa voltado à diversidade de linguagens, gerações e territórios, reunindo artistas consagrados e novos nomes da produção contemporânea em diálogo com diferentes contextos da arte brasileira. Seus espaços, instalados em edifícios singulares nas duas cidades, abrigam exposições, intervenções site-specific e ações educativas.
Serviço
Exposições: “Alfredo Volpi – Os lugares do olhar” (Alfredo Volpi) e “Tawemücü Pu’tchi” (Kuenan Mayu) Curadorias: Cinara Barbosa e Mandú com Divino Sobral (Adjunto)
Abertura: 17 de outubro de 2026, às 11h
Período expositivo: 17 de outubro a 13 de novembro de 2026
Local: Cerrado Cultural – SHIS QI 05, Chácara 10, Lago Sul, Brasília – DF