Menu

Goiânia

Walter Pimentel: Anímica e estelar 
Curadoria: Divino Sobral
26 de Setembro a 14 de Novembro

A obra do jovem Walter Pimentel emana uma energia estelar que atravessa o espaço até chegar ao corpo e atingir a sensibilidade, arrepiando o aparelho perceptivo e inquietando as emoções de quem a contempla. Comoventes e profundas, suas pinturas são emudecedoras, constringem o peito, ressecam a boca e afugentam as palavras, mas, ao mesmo tempo, com uma força extraordinária, estimulam o olho e excitam a retina, produzindo um raio que se estende do olhar ao pensamento. 

Há uma ambiguidade em sua linguagem, que tem origem na utilização singular de registros fotográficos feitos por ele ou apropriados de fotógrafos desconhecidos: por um lado, as representações de Pimentel guardam certa familiaridade e são até mesmo domésticas, mas, por outro lado, são cobertas por um véu de mistério e envoltas em uma narrativa de assombro, que impedem a proximidade e nebulam a função documental contida nas imagens originais, conferindo-lhes um aspecto fantasmático – parecem sobreviver à morte. Os enigmas do inconsciente, a seleção e edição de dados executada pela memória, o devaneio gerado pela imaginação e a experiência mística das visões atuam juntas na reconstrução das imagens do passado, que, transfiguradas e reinventadas na ficção criada dentro da pintura, passam a viver em suspensão, em uma temporalidade anímica. Refeitas, entram nas composições, obedecendo a hierarquias simbólicas, submetidas à convivência com outras figurações, algumas inclusive provenientes de imersões espirituais, de existência psíquica. 

A história da arte ensina que a contribuição artística para a representação da dimensão espiritual da existência humana provém de tempos antiquíssimos e que chegou até a modernidade do século 20 por meio de trabalhos como os da sueca Hilma af Klint (1862–1944) e dos russos Wassily Kandinsky (1866–1944) e Kazimir Malevich (1879–1935), que, influenciados por teorias espiritualistas, promoveram a ruptura com a representação e conduziram a arte ao abstracionismo geométrico, levando a uma transformação radical da experiência artística. 

Produzida como resposta à crise espiritual que a humanidade vivencia no século 21, ocasionada pela exacerbação da cultura materialista e pelos desastres do antropoceno, a obra de Walter Pimentel vai na contramão dos artistas modernistas, pois, assim como as obras de outros artistas de sua geração, busca alinhavar no tecido da arte questões relacionadas com a espiritualidade, investindo na tradição figurativa encarnada na complexa materialidade que compõe a representação de retratos extraídos das fotografias de velhos álbuns, de paisagens imaginadas tomadas por vegetação agitada por ventanias e com céus agitados, e de animais domésticos cujas imagens são ressignificadas. Ativa a espiritualidade, operando com uma simbologia intrincada que leva a refletir sobre o ciclo vida e morte, acreditando na possibilidade de transformar a dor em beleza para curar traumas e feridas individuais e coletivas. 

Ao contemplar as pinturas de Pimentel, temos a sensação de que elas invertem o paradigma que rege a relação sujeito e objeto, e de que são elas que nos olham, observam, provocam, inquirem e desafiam com sua desconcertante presença. Nesse jogo de olhares, tem papel notável a retórica barroca manifesta nas maneiras como as emoções são expressas no enfrentamento entre luz e sombra, na teatralização contida na simetria das cenas e nos artifícios de valorização das molduras opulentas e de exploração dos suportes recortados com bordas irregulares, na vívida realidade figurativa materializada por meio do excesso de camadas de tintas aplicadas com pinceladas repletas de personalidade, em acúmulos de massas e densos empastados, e, ainda, em relevos que reproduzem rostos ou mãos que se projetam para fora, inserindo procedimentos de escultura sobre a superfície turbulenta da pintura.

Incluída nos enredamentos do olhar está, também, uma nota expressionista registrada na fatura das figuras e dos cenários, que sugerem ambientes para o cumprimento de profecias ou a execução de rituais. Sua singular fantasmagoria é acentuada pelo ambiente cromático dinâmico e convulsivo, que investiga a energia das cores que ora são acesas, eletrificadas, vibrantes e fortes, ora são tombadas e amortecidas pela sobriedade e melancolia do preto e do marrom. 

Primeira individual de Walter Pimentel na Cerrado Galeria, esta exposição apresenta um conjunto de trabalhos produzidos entre 2025 e 2026, associando pinturas executadas com guache e têmpera aplicadas sobre papéis a pinturas realizadas com tinta a óleo sobre suportes de tela e madeira, com adição de relevos em espuma expandida ou em fibra de vidro, oferecendo uma amostragem de como sua produção se desenvolve com alto desempenho técnico, manipulando materiais de usos bem distintos. Estelar e anímica mostra um artista inteiramente devotado ao compromisso com o seu ofício, entregue ao ato de criar e cuja obra cresce a cada dia, despertando expectativa de grandioso futuro. 

Divino Sobral
Curador

Anímica e estelar – Walter Pimentel
Curadoria: Divino Sobral 
Visitação: 26 de Setembro a 14 de Novembro
Cerrado Galeria
Goiânia | Rua 84, nº 61, Setor Sul
Entrada Gratuita