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UM MODERNISMO NO OESTE
Curadoria: Curadoria: Divino Sobral

Artistas: Amaury Menezes. Ana Maria Pacheco. Antônio Poteiro. Caetano Somma. Cleber Gouvêa. D.J. Oliveira. Heleno Godoy. Goiandira do Couto. Gustav Ritter. Iza Costa. Juca de Lima. Luiz Curado. Maria Guilhermina. Miriam Inez da Silva. Nazareno Confaloni. Neusa Moraes. Octo Marques. Oswaldo Verano. Péclat de Chavannes. Reinaldo Barbalho. Roos. Sáida Cunha. Siron Franco. Vanda Pinheiro. Zofia Stamirowska

Integrada ao programa Marcha para o Oeste, vigente durante a Era Vargas (1930–1945), a criação de Goiânia por Pedro Ludovico Teixeira, em 1933, coroou o desmonte do sistema de poder da Velha República e abriu frentes para a modernização de Goiás. Inaugurada em 1942, a nova capital foi criada na paisagem sertaneja pela implantação da espacialidade europeia, representada pelo projeto urbanístico de Attílio Corrêa Lima e pelo estilo arquitetônico art déco. Era uma cidade nova casada com sertão antigo, segundo Gilberto Freyrei.

O título da exposição, primeiramente, remete ao oeste brasileiro entendido como o amplo território de Goiás e faz referência à revista Oeste, publicação concebida como veículo da vanguarda local, editada pelo escritor Bernardo Élis, lançada na inauguração de Goiânia e publicada até 1944. A exposição estabelece, ainda, relações com a sede da Cerrado Galeria, uma casa concebida pelo arquiteto paranaense David Libeskind, construída entre 1966 e 1967 e que representa um patrimônio da arquitetura modernista de Goiânia.

Um modernismo no Oeste exibe, de maneira não cronológica, mas em núcleos temáticos, obras datadas entre 1940 e 1979, situadas entre os primeiros anos de Goiânia e a primeira década posterior à inauguração de Brasília – acontecimento responsável por outra onda modernizadora no Centro-Oeste. Apesar de produzida a partir da segunda metade do século XX, a arte moderna goiana não deve ser considerada uma manifestação tardia ou fora do tempo, pois ela se fez em sincronia com o processo de construção da modernidade em Goiás, instaurado com maior força a partir da nova capital e acelerado pelos efeitos causados por Brasília sobre a região. São plurais os tempos da modernidade, assim como são plurais os Brasis. O que ocorreu aqui foi um modernismo afinado com os movimentos de modernização do interior do país e que respondia às realidades culturais, sociais, econômicas e políticas de Goiás – à época, um dos estados mais pobres. Trata-se de um modernismo sem ruptura, sem manifestos, sem confrontos com a tradição, e, em certo sentido, até caipira.

O recorte temporal considera o surgimento da primeira organização artística na cidade, a Sociedade Pró-Arte de Goiás, que realizou exposições anuais em 1945, 1946 e 1947, e exibiu obras de Péclat de Chavannes, Goiandira do Couto e Octo Marques, os dois últimos residentes na cidade de Goiás, de onde provinha expressivo volume de obras. O marco de encerramento posto no final da década de 1970 considera a ausência dos maiores faróis do modernismo local, Nazareno Confaloni e Gustav Ritter, falecidos em 1977 e 1979, respectivamente. Considera também que a árvore modernista plantada na década de 1950 enraizou durante a década seguinte e, segundo Aline Figueiredo, começou a dar frutos entre 1968 e 1970ii, momento em que as pesquisas individuais adquiriram singularidade, consistência e coerência. Foram esses frutos que geraram as sementes da linguagem contemporânea, interrompendo o fluxo modernista.

O modernismo goiano é uma complexa construção. Seus vetores eruditos originaram-se, a partir de 1952, na primeira instituição dedicada à arte no Centro-Oeste, a Escola Goiana de Belas Artes, fundada com a articulação do artista e intelectual Luiz Curado, e, a partir de 1961, também procederam do Instituto de Belas Artes, implantado pela Universidade Federal de Goiás, um marco da modernização recentemente criado. Todavia, existiu outro vetor de natureza popular proveniente do trabalho dos artistas espontâneos, muitos autodidatas e voltados para as expressões do povo. A EGBA foi responsável pela formulação da súmula do modernismo goiano nas artes plásticas, conectando e adaptando o conhecimento artístico de base europeia com a realidade de Goiânia, apropriando-se da arte Inã Karajá como identidade visual da escola, valorizando a arte popular dos ex-votos de Trindade e dos santeiros residentes nas cidades do interior, prestigiando a arte sacra do século XIX e estimulando a prática da fotografia como maneira de modernizar o olhar. Na Exposição de Inauguração da EGBA, em 1953, e na Exposição do I Congresso Nacional de Intelectuais, em 1954, estavam reunidas a linguagem modernista e a tradição, entretecidos o europeu e o autóctone, o atual e o ancestral, o popular e o erudito, o sagrado e o profano. Essas conjunções formaram um programa de identidade cultural que afetou a produção artística das gerações futuras.

Um modernismo no Oeste promove encontros entre artistas da primeira e da segunda geração, permitindo a construção de uma genealogia que dá a ver as várias filiações, oferecendo aproximações que revelam as afinidades que, postas em confluências, constituíram as tendências de cada década. Revela alguns dos processos de formação do repertório goiano, enfatizando a transição de linguagem, a transformação das técnicas e as mudanças nos interesses poéticos ocorridos no interior da produção dos artistas durante quase quarenta anos.

O conjunto revela que, no terreno da pintura, durante os anos de 1950 e grande parte da década seguinte, foram predominantes as influências de Confaloni, com sua figuração formada no Novecento Italiano, e do paulista D.J. Oliveira, que trazia referências do expressionismo filtrado por Candido Portinari. Ambos apostavam na matéria pictórica, na pincelada marcada e na mancha como recursos de linguagem empregados na investigação das particularidades da cor local. Entre os anos 1950 e 1960, os gêneros tradicionais da pintura figurativa preponderavam, tratados com expedientes modernistas, mas, a partir de 1967, a pintura de campo cedeu lugar ao trabalho de ateliê, as pesquisas se adensaram e se aprofundaram, ganhando contornos particulares.

A mostra revela, também, como a cena goianiense foi impactada pela presença dos clubes de gravura apresentados em 1954 na Exposição do I Congresso Nacional de Intelectuais, resultando em um lastro de qualidade nas pesquisas dedicadas às diferentes técnicas de gravação, da xilogravura praticada desde os anos 1940 até a calcogravura, que surgiu na segunda metade da década de 1960. Ambas serviram tanto à expressão de temas associados ao regionalismo ou à crítica social, quanto à experimentação da forma abstrata.

A exposição possibilita compreender como, a partir da segunda metade da década de 1960, a obra escultórica de Gustav Ritter passou a influenciar gradualmente a produção dos artistas mais jovens, principalmente aqueles orientados para as pesquisas tridimensionais, mas chegando também aos pintores e gravadores. As formas passaram a ser criadas dentro de um sistema rigoroso de economia formal, com linhas limpas, enxutas e sintéticas. As obras se moveram da figuração para a abstração, estabelecendo relações com a natureza por meio de configurações orgânicas, volumes rotundos, texturas sensuais e cores terrosas, minerais.

A exposição deixa ver outra característica da arte modernista goiana, que é a plasticidade rurbana – a aplicação da linguagem erudita, modernista e urbana na abordagem de assuntos extraídos do contexto rural, entre os quais se observam com destaque aqueles relacionados à pecuária, à agricultura e às paisagens bucólicas, bem como às cidades coloniais. Rurbano é um conceito empregado por Gilberto Freyre para analisar o ambiente social de cidades como Goiânia e Brasília, onde a modernidade é influenciada pelo ambiente natural e pelo sistema de organização social de base ruraliii.

O modernismo goiano foi produzido no fluxo das migrações internas e externas. As contribuições europeias chegaram com Confaloni, artista imbuído de humanismo, Gustav Ritter, alemão devotado às paisagens e matas brasileiras, e Zofia Stamirowska, polonesa que transitava entre a figuração e a abstração. Como cidade nova, Goiânia atraiu brasileiros de diversos estados: de São Paulo, veio D.J. Oliveira e de Minas Gerais, Cleber Gouvêa. Todos trouxeram consigo conhecimentos e tradições de distintas ordens, e suas atuações como artistas e como professores foram relevantes para a construção de nossa história da arte.

Ao longo das quatro décadas, gradativamente, a arte goiana foi se firmando e obtendo legitimação do sistema de arte nacional. Em 1959, a escultora Maria Guilhermina tornou-se a primeira artista do Centro-Oeste a participar da Bienal de São Paulo. Em 1966, ocorreu a exposição Artistas Goianos no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Em 1970, a XI Bienal de São Paulo apresentou obras de quatro artistas. Em 1973, Ana Maria Pacheco partiu para Londres, onde construiu carreira brilhante. Em 1975, Siron Franco recebeu o Prêmio Internacional da XIII Bienal de São Paulo. É um percurso cheio de acontecimentos importantes, mas pouco conhecidos.

Com esta exposição, a Cerrado Galeria se dedica a reafirmar seu compromisso com o terreno em que habita, reunindo uma centena de obras de vinte e seis artistas, incluindo as participações oriundas de Anápolis e da cidade de Goiás, oferecendo ao público uma visão rica, variada e singular sobre a arte produzida em Goiás durante parte do século XX.

Divino Sobral

Curador