Brasília
Em um mundo que, a cada dia, se torna mais pesado, conflitivo e hostil, a obra de Abraão Veloso surge leve, apaziguadora e acolhedora. Seus trabalhos suscitam sentimentos sutis e se oferecem a nós como um abraço aconchegante, repleto de afagos.
Esse contexto afetivo é produzido pela delicadeza dos gestos miúdos, próprios às técnicas manuais que trabalha concomitantemente à pintura ou sobre ela. O artista revela enorme apreço pela linha, resgatada em suas memórias remotas e compreendida como elemento estruturador das formas no espaço e como condutor de forças emocionais. Ao se dedicar às manualidades tradicionais que operam com o fio de linha de lã ou algodão, como o crochê, que apreendeu ainda criança como ofício familiar, e a tecelagem, que aprendeu na faculdade, Abraão Veloso rememora o gesto motriz do antigo hábito de fazer roupas para presentear familiares, costume que suprimia uma carência material, mas que, sobretudo, exprimia cuidado e amor para com o outro. É necessário dizer que esse aspecto carinhoso permanece agora em sua obra, e que tal tipo de artesanato doméstico, estofado de gentileza, está sendo levado à extinção pela produção industrial em larga escala.
Um abraço em um fio de lã, primeira individual do artista em Brasília, apresenta um grupo de trabalhos executados entre 2024 e 2026, agregando a obras híbridas de pintura com tecelagem outras feitas somente com tecelagem, além do primeiro trabalho do artista executado com crochê. Nessas obras, a delicadeza adquire contornos de insurgência, questionando e afrontando o código de gênero que rege o manuseio das práticas artesanais. São subvertidos alguns aspectos do machismo estrutural que legislam sobre o que é pertinente aos papéis masculinos e femininos e que cerceiam ao homem o exercício deleitoso de certas modalidades de trabalho manual, sob a alegação de que são pertencentes à esfera feminina. O machismo é desacatado ainda pela paleta doce e suave, presente tanto na pintura quanto na tecelagem e no crochê, circunscrita à discrição das tonalidades pastéis de rosa, azul, verde, lilás ou amarelo. Não importando a categoria da obra, suas notas cromáticas são sempre frescas e harmonizadas por modulações simples, passagens calmas e afinações discretas. São caracterizadas por ligeiro romantismo, energia juvenil e alegria matinal.
A produção de Abraão Veloso contribui para a ampliação do debate contemporâneo acerca da masculinidade que se desenha após a instauração da crítica feminista e do movimento de desestruturação do paradigma machista que segue em andamento na sociedade contemporânea. As figuras de homens jovens, negros e membros da comunidade LGBTQIAP+ protagonizam suas pinturas-tecelagens. Nelas o artista se autorretrata e, também, a seus amigos, celebrando a força gregária da amizade, que se alimenta do compartilhamento de histórias de vida, afinidades subjetivas e interesses profissionais. Representa rapazes que prezam a amabilidade e a fineza, em vez da rudeza associada à macheza.
Trata-se de um elogio ao amor fraterno, mas também de uma reação política, por meio da arte, que visa alcançar a superação do preconceito. A exaltação da beleza e das qualidades desse grupo social, historicamente apartado do campo prestigioso da retratística, resiste ao racismo estrutural e enfrenta a violência institucional nele fundamentada, que, no Brasil, produz os índices alarmantes de assassinatos de jovens negros ocorridos nas periferias das grandes cidades, sobretudo, perpetrados pelas forças policiais. Os jovens retratados por Abraão Veloso estão envoltos em um ambiente de conforto e tranquilidade, preservados das possibilidades de ataques. São apanhados absortos, em estado de relaxamento, longe das tensões e perigos iminentes. Estão inseridos em situações do cotidiano, representados em cenas banais que se repetem diariamente de maneira quase despercebida. Na perspectiva do artista, é nesses momentos que a poesia surge engastada no prosaico da vida.
A série de trabalhos que Abraão Veloso vem desenvolvendo desde 2023 utiliza o fio de lã para tramar pequenos objetos que combinam as cores pastéis com a maciez do material, ativando ainda mais as qualidades táteis das obras. A fofura da lã é articulada tanto como ironia em relação ao preconceito contra o cabelo crespo das pessoas afrodescendentes, quanto como prova da natureza afetiva e do desejo de aconchego que movem a criação dessas obras intituladas Nagô, que se inspiram na tipologia de trança homônima, uma técnica de trançado que cria formas enraizadas sobre o couro cabeludo. O nome do penteado faz referência ao povo Nagô, que exerceu influência predominante na formação da cultura brasileira, e para quem esses penteados elaboradíssimos, em homens e em mulheres, possuíam a função de serem marcadores de identidade que indicavam a posição do indivíduo no grupo social a que pertencia. Nessas obras do artista são revividos os ritos familiares e coletivos de trançar os cabelos, são afirmados os signos da identidade negra e timbrados os atos de resistência em enfrentamento ao racismo expressado contra a rica plasticidade dos cabelos afrodescendentes.
Os trabalhos reunidos nesta exposição apontam para o redimensionamento público da imagem do homem negro e convocam a compreender a necessidade de se definir novos princípios de masculinidade, que recusem um único modelo de sexualidade, que pratiquem a expressão sentimental, que assumam a delicadeza dos atos e das falas, que exercitem a brandura dos hábitos apaziguando o homem dos conflitos causados pela performance tóxica do patriarcado, com seus inúmeros preconceitos.
Um abraço em um fio de lã – Abraão Veloso
Curadoria: Divino Sobral
Visitação: até 12 de setembro
Cerrado Cultural
Brasília | SHIS QI 05 Chácara 10 – Lago Sul
Entrada Gratuita
Fotos: Diego Bresani