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Brasília

Kuenan Mayu – Tawemücü Pu’tchi
Curadoria: Mandú
17 de Outubro a 13 de Novembro 

Ao se transformar na lua, deixa-se de ser gente. Movimento completamente natural para um povo que em sua origem foi pescado. Nascidas da explosão dos joelhos de Ngutapa, é a partir deste tempo que Kuenan Mayu, artista Magüta (Tikuna) e Tariana, às margens do rio Ta’tü, aprendeu a pensar o mundo, não como uma narrativa fechada, mas como um ciclo contínuo de nascimento, transformação e encantamento. 

Partindo de uma observação demorada sobre as séries “Eware” e “Pu’tchi”, o ritmo poético desta exposição deságua em um terceiro momento, preciosamente no diálogo entre as duas séries e na retroalimentação que nelas ocorre antes mesmo de serem nomeadas. Eware fundamenta a visão de mundo Magüta, ao passo que Pu’tchi dá continuidade ao percurso e abre novas questões. Eware é o lugar aonde se retorna após o encantamento, e carrega em sua cosmovisão a coexistência entre seres vegetais, humanos, não humanos e espirituais. 

Se em Eware mergulhamos na origem, na história de Ngutapa e Mapana, dos joelhos que ao explodirem geram dois filhos e de Yo’í que pesca um povo inteiro das águas sagradas do rio, a série Pu’tchi se desloca para outro território: o das subjetividades e das corporalidades nomeadas como “dois espíritos”, para as quais não há palavra equivalente em português, embora, com muita desconfiança em relação à tradução, se possa dizer bicha. 

Em Tawemücü Pu’tchi, com trabalhos inéditos apresentados pela primeira vez em Brasília, território de importância para sua formação, Kuenan reúne dezesseis obras em formatos variados, nos quais signos, elementos e perguntas se entrelaçam para pensar relações entre desejo, espírito e uma ancestralidade que não se restringe à espécie humana, mas que atravessa corpos, árvores, peixes e encantados. Seres organizados não pelo regime da separabilidade, mas pela transformação infinita e interespecífica. 

Sobre a entrecasca sagrada do Ngõ’e (tururi), com pigmentos como urucum, jenipapo e pacová, a artista aplica a técnica aprendida através da observação de suas anciãs, uma materialidade que é, ela mesma, receptáculo espiritual, e cujas cores se modificam com o tempo, em um processo similar ao corpo em permanente mutação. A lua ocupa lugar inefável na série, assim como orienta a extração do tururi, que deve ser retirado apenas em sua fase cheia. De início apresentada de forma separada, logo depois se unindo ao sol, culminando em uma espécie de eclipse, em correspondência a toda criatura que se permite viver o mistério da transformação. Uma lua bicha, Tawemücü Pu’tchi na língua materna. A junção dos elementos, a intersecção entre o divino e o sexual, em que as imagens de transição são, assim, naturais e espirituais, em uma reconfiguração e estado de passagem, um modo de existir sem fixação, que se move entre tempos e mundos, em constância. 

Mandú
Curador 

Tawemücü Pu’tchi – Kuenan Mayu
Curadoria: Mandú 
Visitação: 17 de Outubro a 13 de Novembro 
Cerrado Galeria 
Brasília | SHIS QI 05 Chácara 10 – Lago Sul 
Entrada Gratuita