Goiânia
“(…) parafraseando o escritor suíço Robert Walser, que quando um pintor me ensina a crer naquilo que pinta, é porque ele pinta bem. Suas formas, suas cores, suas ideias são como devem ser, elas têm uma existência própria, acredita-se nelas”, escreveu Rodrigo de Almeida Cruz para outra exposição de Renato Rios, em setembro de 2020. Vou me apropriar desse comentário para começar este outro texto, porque ele é perfeito. Talvez esteja dando uma sequência natural para a mostra “Dentro da estrela azulada”, título inspirado no álbum de Caetano Veloso, lançado em 1978, que acontece na Galeria Cerrado de Goiânia. Apropriei-me porque também acredito na sinceridade do que Rios pensa, pinta e desenha. Tive a mesma sensação de Almeida Cruz ao escutá-lo descrever e comentar sua obra no nosso primeiro encontro para pensar o que escreveria para esta exposição.
Amor à primeira vista pela obra do artista que já carrega a paisagem no seu nome, Rios. O que faz é uma pintura do afeto, da cura e da apreciação. Foi no que cheguei depois de saber de onde vêm suas ideias pictóricas, da maneira que pensou e se inspirou para pintar e desenhar. Sua conversa captura e envolve, é a apreciação do fazer e pensar arte.
Artista da espiritualidade, obviamente, da memória afetiva familiar que vai buscar nas avós erveiras, com os seus unguentos vindos das plantas, para fazer uma poção com a arte da apreciação e pensamentos espirituais e chegar nos tons que vai levar sobre a tela. Mas não é só este cerimonial de tomar chá que vai influenciá-lo nas suas escolhas, necessidades e decisões visuais. As avós raizeiras e fazedoras de garrafadas para curar, memórias ancestrais que se alinham com sua pesquisa atual das ervas. Enquanto toma o chá, observa os seus idiomas e as decisões de que cores vai inventar. Usa esse idioma da cor para abrir os caminhos, fazendo relações estreitas com a natureza.
A cor tem cheiro, cheiro de folhas verdes, cheiro de folhas secas ou da folha de louro queimada. Pesquisa os extratos botânicos e aprendeu a fazer os próprios remédios vendo as avós. Aprendeu com elas que as plantas nos convidam para entrar dentro delas.
A bisavó Raimunda contou para ele quando tinha 5 ou 7 anos de idade, diante da curiosidade de ver a avó conversando e, ao mesmo tempo, segurando um maço de manjericão enquanto conversava com as plantas. Curioso, perguntou “mas a planta não fala nada. A senhora não está falando nada?” A avó respondeu: “as plantas falam tão baixo que um pensamento é muito alto para conseguir ouvir a voz delas”. A avó o colocou em uma tarefa de não pensar para não atrapalhar as plantas. Aprendeu a escutar e falar baixinho com as plantas.
Para não pensar e não perturbar as plantas, há de se ter muita força de vontade, respeito e admiração pela sabedoria e conhecimento dos mais velhos, a avó erveira que o ensinou, por fim, a pensar e olhar as coisas como elas são. As pinturas dessa exposição são o que se vê, nada mais são.
Na nossa conversa, Rios contou que toma chá enquanto pensa para pintar. Inspira-se na sutileza das “cores” do chá e das variações aromáticas das infusões e ervas que costuma preparar. Combinações de tons vão se ajustando e sendo afinadas, tomando chá. Um levemente verde. Outro levemente amarelado. Um levemente rosado, e assim vai apreciando os chás que bebe e aquece os pensamentos visuais para tomar suas decisões tonais. Estamos falando de espiritualidade também. O que mais importa nas suas pinturas, me parece, são os campos de cor que cria nas telas e suas aproximações.
Toda essa simplicidade de pensamento, inspiração e apreciação, pesquisa sensorial, visual e filosófica me fez lembrar do livro que lia naquela ocasião, uma coincidência talvez, ou sim, um encontro de pensamentos e reflexões no entorno da filosofia zen-budista, que influencia o nosso modo de viver, que Renato Dias encontra no reequilíbrio do gesto de pintar, nas decisões das cores que toma e nos sentidos que traz para suas telas.
O livro em questão, “A beleza das coisas simples do cotidiano” (tradução livre), é de autoria do japonês Soetsu Yanagi. Uma coletânea de ensaios escritos nos anos 20 e 30 do século passado. Mais de cem anos se passaram e são atuais os seus pensamentos “lentos” para o modo acelerado de viver na contemporaneidade. É fato, não prestamos mais atenção nem contemplamos mais as coisas simples (materiais e das sensibilidades que nos cercam).
Yanagi, filósofo e artesão (o nosso artista popular), vai refletir sobre o chabi, a beleza fundamental da arte do cerimonial de tomar e apreciar o chá na cultura japonesa, que, certamente, espalhou para o mundo os seus princípios zen-budistas. Está ligado também à ideia de religiosidade, de um gesto que não é intelectual, mas sim meditativo da apreciação de tudo que emana do chá e infusões de plantas. Do ritual em si. Os seus aromas, a sua quentura, as suas nuances de cor, a estética dos objetos concretos como a chaleira, o chawan (tigela) e o chasen (vassourinha de bambu) fazem parte desse cerimonial. Impera o silêncio, acima dos pensamentos, disse-me Renato Rios. Gestos comedidos, pensamentos pequenos, simplicidade material, pouco se fala para não perturbar as sombras que carregamos por dentro.
A beleza do Sabi (a beleza das coisas envelhecidas pelo tempo, das imperfeições e da pobreza material) seria a beleza perfeita. É como vemos as pinturas de Renato Rios, que são de uma simplicidade absoluta no uso das cores, formas e sentidos. Ideias e gestos de pintar sublimes e ritualísticos, de reverência mesmo. Também de muita intensidade, embora o resultado da pintura seja de uma simplicidade visual das telas com cores aparentemente ralas e intermediadas com outras de cores densas, contrastantes e de maior profundidade. De certo modo, a mesma maneira reflexiva da tradicional cerimônia. Todo um gestual, uma coisa só, de base espiritualizada que Rios vai praticar.
A avó ensinou algo muito bonito para o neto, que é o que está escrito no livro do filósofo e artesão japonês: esse lugar em que se escuta o silêncio e se aprecia o vazio dentro das plantas.
Por tudo isso, as formas que surgem nas suas telas são essenciais e de um geometrismo puro, mais ligado às simbologias espirituais e da magia, como as três pinturas compostas por uma elipse que está associada ao ciclo cósmico, à harmonia, ao equilíbrio dinâmico e à união entre o espiritual e o material, Grande-espírito, 2024 (óleo sobre tela, 189 x 240 cm). A forma ovalada seria uma evolução do círculo perfeito, indicando a transformação contínua e, na deformação e achatamento, a sua beleza.
Uma repetição da estrela azulada, faz uns cinco anos que inclui a estrela de oito pontas nas suas pinturas e parece ser o símbolo mais pintado por Renato Rios dentre as que compõem esta exposição. O primeiro significado é ser a representação do planeta Terra, que, por conta dos seus oceanos, é vista como azul através do cosmo. Mas também significa a renovação espiritual, a sabedoria cósmica e a busca pela conexão com o divino. Para certas culturas indígenas, é o espírito guardião e o sinal de um grande cataclisma, o dia da purificação com o fim de um ciclo da humanidade e o nascimento de um novo mundo de paz e harmonia. O azul que se vê nesta tela, Alfazema, 2023 (óleo sobre tela, 24 x 18 cm), leva a crer e remete à limpeza da alma e à busca por conhecimentos ocultos de dimensões superiores.
Outras pinturas da exposição trazem formas geométricas recorrentes, como a triangular de Los tres brujos, 2026 (óleo sobre tela, 100 x 100 cm). Talvez o triângulo seja a forma mais sagrada da humanidade, que simboliza a totalidade, o equilíbrio perfeito e a unidade divina. No hinduísmo, o Criador, o Preservador e o Destruidor, reflete o ciclo eterno da existência. Na Umbanda e Espiritismo, faz alusão à tríade da evolução humana: corpo, mente e alma, que precisam estar em perfeita harmonia. Funciona como um elo entre o plano terreno e o plano divino. Já no seu sentido cósmico, é visto como bloco de construção. Outra forma “abstrata geométrica” é o hexágono visto na pintura Escudería, 2025 (díptico, óleo sobre tela, 70 x 100 cm). Para algumas tradições culturais e religiosas, carrega um profundo significado de harmonia, ordem divina e equilíbrio. Juntos simbolizam que o mundo espiritual e o físico não estão em conflito. Também no equilíbrio cósmico, o triângulo virado para cima representa a energia masculina, o fogo e o divino. E para baixo representa a energia feminina, a água e o plano terreno.
Nas pinturas, essa espiritualidade fica evidente: vão se transformando conforme vai experimentando o universo das cores, ideias e significados místicos dessas formas geométricas. Experimenta a modulação a partir delas; foi a forma de encontrar a sua paleta, abrindo-se para o jogo do espaço modular com suas aproximações. Vai fazendo relações tonais da cor e do espaço sobre a tela.
É de notar a passagem por uma depuração do que pintava antes para o que faz hoje, uma obra em evolução. É a força da pintura que nos convida para entrar: “não tem como desver, elas batem de frente, puxam o olhar do espectador para o canto e depois para o centro”. Pinta o percurso do olho, que deita sobre a tela e escorrega de um canto ao outro e se detém no centro. É o olho que pensa.
A obra está nesse lugar da escuta, nesse lugar de apreciar as pausas e depois usar as ferramentas que os mestres (Mira Schendel, Laura Vinci e Paulo Pasta) lhe passaram, para prestar atenção no espaço do silêncio da arte e das coisas simples.
Os três mestres lhe ensinaram a traduzir as vivências existenciais e o vazio que habita todos nós.
A arte que faz hoje tem um lugar muito íntimo nas suas relações mais íntimas com a natureza. Usa as ferramentas com um compromisso com a pesquisa da linguagem, pois é um trabalho que chama outro, que chama outro e assim vai, em uma linha de assuntos, temas e investigações coerentes com o percurso do seu olhar para as coisas misteriosas que Rios ainda não entende. Em outros momentos em que toma chá, olha para o que pinta e compreende de onde vieram. De certo, é que compartilha a humanidade das suas pinturas na sua forma de pensar a arte e de pintar, cheio de benevolência, cheio de virtudes e de humanidade.
Na UNB, Renato Rios fez Artes Visuais e estudou Filosofia e Letras. Concentrou-se por ali nessas faculdades para explorar as técnicas, os materiais e o sentido das coisas. Conectou-se nesse caminho com o desenho, a escultura e a gravura. Fez um estudo da criação da imagem poética ou de como se cria uma atmosfera e ambiência para trazer à tona os sentimentos. A palavra vai ser usada para descrever o personagem. Pintou paisagens, retratos e fez uma pintura mais figurativa, pois ainda não tinha descoberto o caminho a seguir. Descobriu quando veio a fazer a residência artística da Fundação Armando Álvares Penteado, em 2017, e, consequentemente, foi assistente da artista Laura Vinci. Começou lavando os vidros das instalações que usa para soltar vapores. Trabalhos que sublimam a materialidade instalativa, pois entra-se em suas exposições e não se vê a obra na sua materialidade, só uma visualidade diáfana.
Uns meses depois, foi indicado pela mesma artista para assistir Paulo Pasta, outro que investiga o cromatismo na pintura, criando atmosfera de variações tonais sutis e silenciosas, em um processo lento e instigante. Uma gama de cores para serem contempladas como lugares, obedecendo o tempo da experiência do gesto de pintar. Renato ainda está nesta posição, mesmo já não necessitando mais, mas a amizade, por sua vez, é mais consistente e contínua, levando-a adiante.
Outra artista que aprecia é Mira Schendel, depois de ser vista dezenas de vezes na mostra do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2017. Rios diz que foi arrebatado pela obra da artista suíça radicada no Brasil, na sua forma rápida e certeira de pensar a pintura na presença do vazio e silêncio, muito influenciada pela fenomenologia e o zen-budismo. As palavras ou os signos inscritos na sua obra funcionam como os haikai (poesia japonesa), uma forma de poesia visual. Uma obra da essencialidade da arte que muda os paradigmas atuais da criação e o fazer da arte.
Com tão pouco, os três artistas citados por Renato Rios, em nossa conversa para escrever esse texto, chegam junto do sublime. A imaterialidade do pensamento e do sublime desses três artistas (mestres), deslocou o eixo do pensamento de Rios, que queria sempre fazer bem feito o desenho e a pintura. A partir do encontro com a obra desses artistas, começou a pensar “mais leve” e ver beleza na imperfeição. Depois dessas experiências estéticas e sensoriais, começou também a pintar mais leve — e é o que se vê nesta exposição.
Nesses trabalhos mais recentes, vistos na mostra da Cerrado, o artista envereda de vez nas nuances e transparências da cor. Das sutilezas do pensar, do fazer e do apreciar.
A pintura perfeita é aquela que faz silêncio e nos induz também ao silêncio, à contemplação, propriamente dita.
Ricardo Resende
Crítico e curador de Arte
Rio de Janeiro, julho de 2024.
Dentro da estrela azulada – Renato Rios
Curadoria: Divino Sobral
Texto: Ricardo Resende
Visitação: até 26 de setembro
Cerrado Galeria
Goiânia | Rua 84, nº 61, Setor Sul
Entrada Gratuita