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Brasília

Rafael de Almeida: Antes do couro ceder
Curadoria: Matteo Bergamini
até 12 de setembro

A espessura do limite na obra de Rafael de Almeida

“Antes do couro ceder” é um percurso inédito por imaginários mais-que-realísticos que interligam relações sentimentais e contratos sociais tanto entre humanos, quanto no vínculo entre homem e gado. As identidades criadas por Rafael de Almeida rodam o cotidiano rural, refletindo também a respeito do desejo masculino de atingir o máximo de si. Mas qual seria, se existisse de verdade, esse alcance perenemente frustrado à medida de um confim que abrange até os sentimentos? O homem logo aprende: tudo tem um perímetro, pois milhares de anos de “conhecimento” levaram-no a lugares para não ultrapassar e, a partir dessa obrigação, a maquinar a única liberdade concedida: a vigiada, a mesma vivida pelos animais de quintal. Desta fusão entre o humano e a figura do boi – entidade com que a nossa espécie compartilha a capacidade de submeter-se às regras, à convivência de vez em quando forçada com o grupo, aceitando até o próprio sacrifício – Rafael de Almeida constrói a própria poética, ensaiando por imagens tocantes um diálogo apertado onde ambas as subjetividades permanecem fiéis à recíproca subsistência e, no ato final, caladas perante o drama de uma separação inelutável.

Uma história assolada? Não exatamente, mas tampouco a de um passeio tranquilo pelos interiores brasileiros: Rafael de Almeida amarra o imaginário cerratense e suspende-o à beira de um barranco para mostrar um leque de hipóteses nada mansas. A partir do título, “Antes do couro ceder”, abrem-se inúmeras sinestesias: nas pradarias, por tradições e festejos, há um mundo nunca escancarado como sangrento ou extremamente violento, mas, ainda uma vez, continuamente atravessado por uma ambiguidade rastejante: o bem, o mal e a fronteira. Neste universo abrasado, encontra-se aquela espessura do limite que pertence a todas as existências – questionada pelo artista na elaboração de imagens-paisagens onde homem e bicho criam elos familiares, formas de interdependência ocultamente sentimentais.

No registro dessas empatias, desvelam-se ainda mais cenários: o artista trabalha no núcleo do arquivo – real ou promptografado, criado com uma inteligência artificial treinada para imaginar o que teria sido possível, mas que nunca foi realmente documentado – que escapa à certificação. O olhar documental, de fato, põe-se como uma hipótese entre várias possíveis; a fabulação que habita estas séries golpeia todas as realidades que ganham, assim, a forma de uma autossugestão. Contudo, a realidade no corpo do trabalho de Rafael de Almeida continua eternamente ali, alcançável e simultaneamente em outro lugar: também vale ressaltar que muitas das séries aqui apresentadas vêm formando-se por “limites”, já que a maioria das peças é desenvolvida com a antiga técnica da cianotipia, movediça e sujeita às demais condições de um trabalho criado por processos de luminosidade e obscuridade.

Apesar de tudo, uma certa inocência continua em cada canto dessa jornada, mesmo quando o implacável cotidiano atira no compasso da vida com as suas perguntas: onde acabou aquele menino cuja mirada, hoje, tornou-se estranha ao próprio passado? Como a corda amarrou no

próprio pescoço depois de ter amarrado inúmeros “amigos” de outrora, de repente traídos para não decepcionar o nosso entorno? Que erro fatal cometeu o homem com H das vaquejadas e do imperecível binarismo?

Seguimos. Em Véu de Noiva e Linhagem a espessura do limite se estilhaça na união entre as duas entidades: toques de cores para uma festa de casamento em homenagem àquele universo feminino silenciado e fundamental tanto ao gado, quanto aos trabalhadores, “troféus” para acompanhar o lado certo do machismo e “material” para replicar a espécie; força-trabalho de cada tempo. Por outro lado, uma jaqueta de franjas de couro, fantasia para uma perfeita festa sertaneja que puxa ao paradoxo: o bicho vestindo a si mesmo, desdobrando-se simultaneamente em objeto e sujeito já que, por citar Jacques Lacan, o sujeito sempre vem “duplicado” entre o eu ideal – a própria imagem – e o ideal do eu – o chamado “Discurso do Outro”, no qual viemos julgados pela sociedade primária (a família) ou pela complexa.

No meio dessa caminhada, encara-se a ordem estabelecida: em Prego na carne a silhueta do esposo é primeiramente um fantasma, integrado com o próprio verde que remete ao ambiente; um sonho de amor unicamente vivido pela outra metade do casal, apaixonada talvez pela ideia à qual o invólucro do companheiro remete ou, simplesmente, veste. Nos rostos Extrafrágeis dos cowboys, remexidos por tinta a óleo, a identidade se disfarça: envoltos por cenários brilhantes de cores de praças de festa vazias – metáfora dos grandes espaços sertanejos – tornam-se duplos lúdicos e trágicos de tanto ficar plastificados em um ambiente estéril. Aos cavalos resta acompanhá-los, companheiros involuntários e, nesse caso, também privados dos símbolos da própria virilidade, a mesma incorporada pelo boi e peculiar a olhares jovens e firmes, desafiadores na destreza em brandir espingardas, pistolas, em matar onças e se enfeitar com cobras. Mas afinal, é perfurar bolhas para conseguir respirar a eventualidade mais árdua.

Seguindo essa tensão e alternância – na roda-viva do dia a dia algo desanda, e o coração leva o tiro – alguns aceitam as consequências, outros, lá no horizonte – incluindo mulheres, como em Nuvem Rasa – continuam pensativos, surpreendidos pelo inesperado. Por fim, em outros lugares os cowboys desse enredo carregam nas costas a própria calma aparente, entrando vagarosos no som alto das boiadas, até os primeiros raios de sol iluminarem os trajes: Onde a festa nunca acaba, acabou-se pelo peão.

Os bois, de qualquer forma, teriam-no aceitado mesmo sem possuir uma casca do couro.

Antes do couro ceder – Rafael de Almeida
Curadoria: Matteo Bergamini
Visitação: até 12 de setembro
Cerrado Cultural
Brasília | SHIS QI 05 Chácara 10 – Lago Sul
Entrada Gratuita

Fotos: Diego Bresani