Brasília
Ailema Bianchetti, Alfredo Volpi, Athos Bulcão, Betty Bettiol, Bruno Giorgi, Douglas Marques de Sá, Félix Barrenechea, Glênio Bianchetti, Lêda Watson, Maciej Babinski, Marília Rodrigues, Milton Ribeiro, Minnie Sardinha, Paulo Iolovitch, Roberto Burle Marx, Rubem Valentim, Solange Escosteguy e Stella Maris.
Notícias do Centro-Oeste
Muito antes de Brasília ser inaugurada, no dia 21 de abril de 1960, ela já existia como ideia no pensamento sobre a necessidade de interiorização da capital do Brasil para ampliar e solidificar as conquistas do progresso civilizatório, condição prévia da Modernidade. A mudança do litoral, no Rio de Janeiro, para um quadrilátero em um altiplano na região Centro-Oeste do país tem uma história particular, articulada entre muitos poderes que compõem a nação ao longo dos últimos séculos. Esse território passou a ser chamado de Distrito Federal. Nele, Brasília foi construída.
Brasília nasceu como símbolo de um pensamento modernista em torno das noções transformadoras do urbanismo e da arquitetura, no final da primeira e no começo da segunda metade do século XX. Em outubro de 1956, foi lançado o concurso para a nova capital. Lúcio Costa foi o urbanista vencedor e Oscar Niemeyer foi o arquiteto escolhido, pelo então presidente Juscelino Kubitschek, para projetar os edifícios. Os projetos contaram com a colaboração de Joaquim Cardozo, engenheiro responsável pelos cálculos estruturais. A relação entre essas áreas e as engenharias, juntamente com as propostas de paisagismo de Roberto Burle Marx e os painéis para edifícios em áreas públicas de Athos Bulcão, incrementou o plano de formação da cidade.
As artes visuais fazem parte de Brasília desde os seus primórdios. O Planalto Central do país é uma região ocupada há muitos anos. A Pedra do Bisnau, em Formosa, com seus sulcos e figuras geométricas, e o Parque Três Meninas, entre Samambaia e Ceilândia, com suas pontas de lança de quartzo transparente, são dois dos diversos sítios arqueológicos existentes na região. Território ocupado há milênios, essa área da nação ganhou com Brasília uma inscrição definidora na Modernidade.
Esta exposição apresenta um recorte da produção de artistas ligados a Brasília em sua inauguração e enfoca mais detidamente nas obras produzidas na cidade durante as décadas de 1960 e 1970. O Modernismo instalado no Planalto Central foi construído a partir do empenho de muitos agentes, em uma quase infinita agremiação de labores. Pessoas vindas de diversas partes do país e do mundo congregaram-se em um mesmo lugar e o transformaram, no decorrer do tempo, a partir de suas práticas.
A interiorização da capital
Em 19 de setembro de 1956, foi aprovada a lei para a construção de Brasília. Em 16 de março de 1957, foi divulgado que o projeto de Lúcio Costa era o vencedor do concurso para a nova capital do Brasil. Com isso, teve início um processo que nos traz até aqui, no coração da nação. Para a construção de Brasília, inicialmente, houve a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap).
Logo depois disso, os preparativos formais para o início da construção tiveram sua primeira articulação. Mas, desde a Constituição de 1891, já circulavam no Congresso Nacional, na então capital Rio de Janeiro, ideias sobre a necessidade de mudança da capital do litoral para o interior do país. A Missão Cruls, que mapeou topograficamente a região da nova capital, aconteceu em 1892.
A construção de muitas trajetórias
Desde o seu início, Brasília teve uma orientação modernista. A cidade é herdeira do princípio da ruptura que, de certo modo, define o Moderno. O ensino tem papel fundamental na construção do pensamento plástico brasiliense, formando criticamente sujeitos a partir de uma qualificação especializada e compromissada com o desenvolvimento das linguagens modernistas.
Na história de Brasília, a UnB, inaugurada em 1962, possui muita importância. Além de centro de ensino, é também centro de pesquisa e difusão. O Instituto Central de Artes da UnB estava vinculado aos cursos de Arquitetura e Urbanismo, tendo como missão despertar vocações e incentivar a criatividade. O Departamento de Artes estava ligado ao ICA e mobilizava um conjunto complexo de profissionais que atuavam diretamente no incremento dos processos acadêmicos, das exposições e eventos variados, das publicações fundamentais para o aprofundamento crítico, das entrevistas com diversos agentes do circuito, da produção de documentários com equipes especializadas, enfim, de toda uma rede complexa de agenciamentos coletivos do desejo em conjunção com o tempo e o contexto.
Logo no começo da história da cidade, Brasília passou a ter espaços alternativos para a produção artística. Assim foi com o ateliê de Félix Alejandro Barrenechea, frequentado por Cildo Meireles, no começo dos anos 1960. Aos poucos, surgiram ateliês abertos, oficinas com técnicas variadas, salas comerciais e casas foram transformadas para encontros de grupos de pessoas interessadas. A criação artística se ampliou na capital com a ação desses espaços alternativos.
O Centro de Criatividade da 508 Sul, fundado em 1977, é outro lugar formador de pensamento estético e difusor da produção artística da capital federal do país. Ali, no decorrer da ditadura, oficinas abertas proporcionavam mergulhos profundos na criação e na articulação entre arte e política, uma vez que as duas tecem-se mutuamente.
Um alento para os sentidos
Esta exposição apresenta obras de dezoito artistas relacionados com Brasília em sua inauguração e sua fase inicial. Elas mostram-nos um pouco mais do universo criativo dos artistas. No geral, as obras dão-nos uma ideia de contexto, informam-nos sobre os gostos de época, apresentam-nos algumas tendências e pontuam a produção particular desses artistas que produziram múltiplos Modernismos no Distrito Federal. Em princípio, não há como determinar o número exato de artistas que produziram na cidade nessas décadas, muito menos como expor essa produção. Temos um recorte, como parte de um todo mais complexo, e podemos imaginar outras constelações a partir das obras.
O período que a exposição aborda foi atravessado pela Ditadura Militar (1964-1985) e pelas suas decorrências. A produção artística esteve sob o controle da censura e reagiu atuando como instrumento de resistência e de denúncia das violentações contra a sociedade e a liberdade de expressão. A arte engajada apresenta-se de várias maneiras. Uma cor pode definir um princípio ideológico; uma figura pode expressar uma posição política. Ou seja, a produção artística se vincula a uma série variada de funções e simbologias.
De imediato, há na exposição um elogio aos artistas e aos seus legados, bem como a todas as pessoas ligadas à guarda e à preservação dessas obras que, de maneira direta, estão envolvidas no fato dessa mostra acontecer, a partir de um entendimento necessário sobre a importância de expor as obras e relembrar artistas fundamentais para a construção de Brasília e a atualização de nossa história.
A produção artística se abre para um campo prático, construído numa trama que também é teórica e política, na medida em que forma sujeitos, emancipa procedimentos, aperfeiçoa técnicas, investe nas vivências transformadoras com a matéria, atualiza e valoriza a tradição e é entendida como símbolo coletivo de uma construção necessária aos processos de valorização da condição humana.
A Modernidade tem como emblema a ruptura. Vemos na exposição o trânsito entre a tinta a óleo e a acrílica, assim como a presença de diferentes materiais. Há também um pêndulo entre figuração e abstração, como símbolo de uma dinâmica complexa e profunda que se processa na produção artística desses Modernismos que nos constituem. Isso atesta o avançado grau de experimentalismo daquele período, caracterizado por pesquisas em salas de aula, oficinas, ateliês e espaços cheios de vitalidade.