Brasília
Helô Sanvoy concentra-se em investigar as funções simbólicas e as propriedades plásticas de alguns materiais procedentes de diferentes contextos, criando conversações, atritos e tensões entre eles para refletir sobre problemas estruturais da sociedade brasileira. Dá a ver, por meio de arranjos inusitados, uma situação de conflito social que envolve um corpo historicamente submetido à exploração do capital. Trata-se de uma produção crítica que escapole ao caráter denunciatório e opera no terreno em que a experiência artística parte da vivência do sujeito para alcançar a escala pública, ativando reflexões de ordem política e cuidando de inserir, na poética, uma dimensão ética.
A cuidadosa escolha dos materiais resulta do entendimento de que eles, mais que materialidade moldável, são signos carregados de historicidade, cujos significados foram impressos no imaginário coletivo principalmente por motivações econômicas. O artista, ao investigar a função social dos materiais, consegue apontar os paradoxos de um país impregnado de resíduos coloniais, que sofre as graves consequências do longo período de escravatura, mantendo permanentemente a precarização do trabalho e promovendo a desvalorização do trabalhador — situação que afeta a maioria da população.
Compreendidas por Helô Sanvoy como objetos, e não como desenhos, as obras da série Eiro remetem à origem do gentílico nacional ao mesmo tempo que enfocam a nomeação do trabalhador brasileiro pertencente aos estratos sociais populares. A plasticidade lembra antigos rótulos, peças publicitárias ou estandartes. O carvão é usado para escrever palavras incompletas dispostas em diferentes posições e tamanhos, emolduradas por ornamentos gráficos nostálgicos que remetem ora ao modernismo de Brasília, ora ao art déco. Em destaque, avermelhada, a palavra Eiro é grafada com um tipo de encáustica produzida pela mistura de cera de abelha com pó de pau-brasil. Para serem concluídas, essas obras convocam a ação mental do espectador, que é convidado a acrescentar o sufixo “-eiro” às palavras incompletas e, assim, nomear agentes profissionais dos mais diversos ofícios — boiadeiro, caminhoneiro, coveiro, garimpeiro, lixeiro e pedreiro — em um arrolamento de atividades desenvolvidas pelos não bacharéis.
Eiro é um sufixo de origem latina que indica atividade laboral e, embora segundo as normas gramaticais do idioma português não indique origem de nascimento, foi empregado, como uma exceção gramatical, na constituição do gentílico brasileiro. A palavra formada pela junção da raiz brasil com o sufixo -eiro, originalmente, possuía conotação pejorativa e designava aqueles que operavam na costa brasileira realizando a extração e a comercialização do pau-brasil — matéria-prima do primeiro ciclo econômico instaurado na aurora da colonização, quando se iniciou, por meio do escambo e da escravização, o processo de exploração do trabalho. O primeiro historiador do Brasil, Frei Vicente de Salvador, empregou, no século XVII, o termo brasileiro para definir, também, as pessoas nascidas neste solo; ao longo dos séculos, o gentílico foi popularmente assumido por aqueles que compartilhavam do sentimento de pertencimento à identidade nacional. Assim, manobrando com materialidades e palavras, Helô Sanvoy aponta a proximidade entre o indivíduo brasileiro e as deterioradas relações de trabalho estabelecidas no país.
Se nas obras da série Eiro repousa, de maneira latente, a memória dos corpos submetidos ao trabalho extenuante e mal remunerado, nos objetos da série Lucidez difusa os signos do corpo são postos em confronto com os resíduos da arquitetura, expressos pelos cacos de vidro temperado — material largamente empregado na arquitetura moderna e contemporânea, especialmente em edificações que sediam instituições de poder político, econômico ou cultural, e que anunciam o discurso de gestão transparente. Mas, na produção de Helô Sanvoy, o vidro está reduzido a cacos com os quais são levantadas paredes no interior de caixas de metal ou de madeira. Quebrado, carrega o impacto do choque violento com um corpo em oposição, metaforizado por pedaços de couro que emulam partes de um corpo negro, órgãos e tranças de cabelos. As tensões entre as duas matérias são acentuadas pelo chumbo derretido lançado sobre o vidro que perdeu sua translucidez. Lucidez difusa registra uma beleza trágica.
A instalação Continente é executada com centenas de copos americanos sobrepostos em torres, à maneira da Coluna Infinita de Brancusi. O objeto de uso cotidiano é explorado por Helô Sanvoy com as práticas da acumulação e da repetição, criando formas que investem nas qualidades de transparência e leveza do material. O equilíbrio, produzido pelo encaixe de boca com fundo, desafia a fragilidade do material e o risco de desabamento e queda das torres delgadas e transparentes, de distintas alturas, dispostas bem próximas umas das outras sobre o chão da galeria. A obra faz alusão ao continente americano — terra invadida, tomada dos povos originários e colonizada pelos europeus —, utilizando um objeto comum de forte apelo popular e presente no cafezinho do trabalhador brasileiro.
Eiro, primeira exposição individual de Helô Sanvoy montada na Cerrado Galeria, reúne um conjunto de obras representativo dos caminhos que sua pesquisa trilhou nos últimos sete anos, adquirindo destaque na cena contemporânea, marcada por movimentos de reconfiguração das narrativas históricas, sociais e culturais.
Divino Sobral