Goiânia
Gustavo Torrezan vem se debruçando há alguns anos sobre questões estéticas que problematizam aspectos políticos, econômicos e sociais do Brasil. É um artista que produz obras de natureza conceitual, pensando sobre o poder do Estado e seu papel na formação das chagas abertas no imenso território, marcado pelo abandono de parte da população e pela contínua exploração dos recursos, operada como alavanca do progresso econômico e modo de acesso à dominação e controle.
O título da exposição, Modernização conservadora, provém do conceito formulado pelo sociólogo estadunidense Barrington Moore Junior para definir as transformações ocorridas na produção agropecuária, em escala mundial, após o fim da II Guerra, sem que houvesse modificações na estrutura fundiária. Com abrangência internacional, o conceito passou a ser empregado no Brasil a partir de 1977 como reação crítica ao programa governamental chamado de Revolução Verde, que fora instalado em meados da década de 1960 para aumentar o volume das produções agrícola e pecuarista nacional.
A Revolução Verde foi um pacote implantado pelo governo militar, que visava expandir a fronteira agrícola, incentivando o desenvolvimento da pesquisa agropecuária, estimulando os produtores tecnificados, promovendo a ampliação de crédito rural e a desoneração tributária de insumos. Com ela vieram os usos de sementes modificadas, agrotóxicos e fertilizantes químicos, a irrigação, a criação intensiva de animais, a mecanização e a integração das grandes e médias propriedades com a agroindústria, que contribuíram para transfigurar o campo, possibilitando maior concentração da posse de terras e o consequente êxodo da população campesina para as cidades, tornada massa trabalhadora não absorvida pelo capital, além de graves danos ambientais, que vão do desmatamento à contaminação dos solos e águas.
As obras reunidas nesta exposição refletem sobre a Modernização Conservadora, realizando um encontro entre o procedimento manual da pintura e a técnica industrial do desenho, que é elaborado à mão, vetorizado e finalmente gravado a laser. O gesto orgânico do artista é convertido em um registro tecnológico, e o desenho, ao ser colocado sobre a pintura, inverte o paradigma da história da arte, que sempre o dispôs em situação subalterna e sem autonomia expressiva, como projeto ou estudo. A imposição do industrial sobre o manual promove, metaforicamente, o confronto da roça tradicional com o agropop contemporâneo. O Brasil, desde a invasão portuguesa, viveu distintos ciclos econômicos assentados na exploração dos recursos naturais ou na produção de commodities, ocorridos em distintas épocas e regiões e encaixados dentro da lógica fundiária das grandes propriedades e da prática da monocultura. Eles embasaram a tradição do conservadorismo dos programas modernos e contemporâneos destinados ao campo, preocupados em modernizar a esfera técnica sem modificar a esfera social.
As obras de registro naturalista são executadas a óleo sobre madeira, empregando valores tradicionais como perspectiva, luz, cor local e atmosfera. São paisagens bucólicas que embutem certa ingenuidade e certo grau de lirismo nas representações de áreas rurais com plantações férteis e pastos verdejantes, sob o céu límpido e azul. Essas paisagens são inspiradas em locais do interior paulista, principalmente da região de Piracicaba – cidade natal de Torrezan e de sua família e onde estão sediadas grandes corporações do agronegócio. São produzidas por uma operação que dilui a importância da ideia de autoria para dar relevo à ideia de colaboração, embaralhando o próprio e o alheio. São executadas por colaboradoras que contribuem com diferentes maneiras de conduzir a fatura, com diferentes caligrafias ao pintar o céu, as nuvens e as árvores. Assim como a Modernização Conservadora perturba as paisagens naturais, a tranquilidade sugerida por essas paisagens é destruída pelas marcas da agroindústria figuradas como queimaduras sobre as superfícies das pinturas. Vale lembrar que a violência e a força destrutiva das queimadas foram historicamente utilizadas para abrir novos campos de cultivo e de pastagem no interior do Brasil, e que, recentemente, como crimes ambientais, chegaram a índices alarmantes. Nessas obras, o desenho age como linha de fogo que transforma o conteúdo da pintura.
Investida pela complexidade conceitual, esta série de obras de Gustavo Torrezan (assim como outras) é ancorada na história e na memória de sua própria família: seus avós, imigrantes italianos que vieram para o Brasil no bojo do projeto de embranquecimento da população brasileira, foram trabalhar como lavradores no meio rural tradicional do interior paulista, e foram, posteriormente, com a chegada da tecnologia ao campo, empurrados para a cidade com seus filhos e descendentes, levados do campesinato para o proletariado, sofrendo as consequências das políticas fundiárias e sociais do Brasil, inclusive da Revolução Verde. Há na produção de Torrezan uma articulação inteligente que ata a história do artista à história do país, colocando os pronomes eu e nós para caminharem juntos no interior das obras.
Por fim, resta dizer que o artista, ciente dos erros do passado, sabedor dos equívocos do presente e dos riscos do futuro, deseja, com as obras de Modernização conservadora, apontar a grande desconexão das sociedades moderna e contemporânea com a Terra, e alertar sobre o perigo contido no aumento da exploração da terra.
Divino Sobral
Curador
Modernização Conservadora – Gustavo Torrezan
Curadoria: Divino Sobral
Visitação: até 01 de agosto
Cerrado Galeria
Goiânia | Rua 84, nº 61, Setor Sul
Entrada Gratuita