Goiânia
Obras de importância capital executadas por Almeida Júnior, as pinturas Caipira picando fumo (1893) e O violeiro (1899) são manifestações do pensamento vigente durante o final do século 19, quando as questões relacionadas à identidade nacional e às origens da cultura brasileira ganharam espaço na pauta cultural instalada no país que, há pouco, inaugurara sua República. Engajado nessa reflexão, o artista paulista se concentrou em investigar o aspecto identitário a partir da figura do caipira, o matuto isolado no interior, movendo-se no ritmo lento do tempo pré-moderno, no regrado da vida simples e abandonado pela ordem progressista recentemente declarada.
Posicionada dentro das complexidades do país – e tirando partido das suas desafinações cronológicas –, a produção de Fábio Baroli, de certa maneira, permite imaginarmos uma conversa entre o caipira paulista do final do século 19 e o caipira mineiro da terceira década do século 21. A interlocução do artista com as obras de Almeida Júnior se dá por meio da aproximação das suas vivências em ambientes semelhantes, na afinidade de suas experiências diretas com a cultura interiorana, que sempre foi estigmatizada pelo projeto de modernidade e progresso responsável por inferiorizar sociedades tradicionais, baseadas na economia familiar e no uso moderado dos recursos naturais.
Contrapondo a visão depreciativa imposta pela dicotomia litoral versus interior, proveniente da colonização, Fábio Baroli dedica-se a pintar a vida do interior de Minas Gerais – mais precisamente, da região do Triângulo Mineiro, onde a cultura caipira, formada em torno da agricultura e da pecuária, é própria a essa zona de transição entre os modos de vida das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Com o avanço dos processos atuais de produção rural baseados na tecnologia e na monocultura, a roça que fixava as famílias à terra foi desfigurada, forçando o êxodo humano do campo em direção às periferias das cidades. Ao longo de sua trajetória, o artista absorveu essas tensões e se ocupou em redimensionar a contribuição caipira para a cultura contemporânea, formando um amplo repertório de assuntos, que abrange retratos, paisagens, animais, plantas, festividades, cultura popular, artesania e hábitos.
Nesta exposição estão obras que mostram o apuro técnico dado à representação naturalista, que tem início em fotografias produzidas por Baroli sobre os temas abordados. O conjunto majoritário é formado por pinturas que, quando vistas de longe, possuem uma definição quase fotográfica e, quando vistas de perto, exibem as marcas da fatura e o vigor das pinceladas. As pinturas se organizam em torno de três questões: a atualização da pintura de costumes, enfocando o cotidiano prosaico das pessoas simples; a composição de natureza-morta de maneira não convencional; e a pintura de paisagens, caracterizada pela intensidade da luz tropical. Revelando a herança de sua formação na Universidade de Brasília, o artista expressa a consciência crítica da natureza do suporte na pintura, ativa a potência de sua materialidade para além da ideia de fundo e o impõe como comentário sobre a própria existência da pintura.
A pesquisa de suportes não convencionais toma corpo nas obras Paisagem retalhada, executadas com fuxico, elemento da costura popular semelhante a uma pequena roseta. Essas obras têxteis surgem da memória e guardam afetos femininos familiares. Escapolem ao naturalismo observado nas pinturas, embora sejam orientados por fotografias da paisagem do cerrado queimado. São composições abstratas, baseadas em pontos de cor, que conectam as ideias de artesania e imagem formada por pixels, e destacam a relevância da tradição popular na contemporaneidade. De outra maneira, esse elemento aparece representado em grandes pinturas chamadas Fuxico, que se encaixam no gênero natureza-morta, emulando peças de tecidos confeccionados com fuxicos. Dispostos sobre uma superfície preta, os pontos de cores vibrantes são potencializados em composições que lidam com modulações sinuosas, desenrolando-se em dobras e drapeados que conferem dinamismo às pinturas.
Uma fusão de gêneros, paisagem com pintura de costumes, ocorre nas obras da série À porta de casa, dedicadas a representar cenas cotidianas das pequenas cidades, como o hábito da população interiorana de ficar à porta de suas residências – desde o umbral da soleira da porta, entre o dentro e o fora, até a ocupação plena do espaço público da calçada – em momentos de descanso, lazer e interação com familiares e vizinhos, durante os dias ensolarados ou noites de calor. Nesta série, as fachadas de casas simples ou os planos de muros ou lotes baldios são valorizados pela plasticidade da luz, cuja variação de intensidade produz sombras profundas e influencia a tonalidade e a temperatura das cores.
A série Declínio representa paisagens fixadas no céu do interior brasileiro. São pinturas construídas em dois planos, divididos por uma faixa horizontal branca que funciona como linha do horizonte: o superior representa um pôr do sol com o ambiente cromático quente típico da estação de seca, quando ocorrem as grandes queimadas, devastadoras de enormes áreas; o inferior é constituído por vestígios das queimadas, carvão e cinzas misturados à terra, que são compactados abaixo da superfície pintada. Dessa maneira, Fábio Baroli introduz uma abordagem crítica na representação de um tema que é, geralmente, tratado como trivial e idílico.
As Paisagens invertidas são pequenas pinturas que colocam o céu no chão e o chão no céu, conduzindo à reflexão crítica sobre o uso da terra. Nelas, a linha do horizonte, posicionada quase ao centro do plano, separa o espaço celeste de delicado azul do plano de terra vermelha, que parece arada por pinceladas marcadas e largas, pronta para receber o plantio. Estendendo seu olhar sobre a paisagem, Baroli cria objetos-pinturas que o público pode manipular. São representações feitas da copa até as raízes de árvores, como os ipês rosa e amarelo, exuberantes exemplares da flora, que embelezam os diversos biomas do vasto interior brasileiro.
Divino Sobral
Curador
Interior – Fábio Baroli
Curadoria: Divino Sobral
Visitação: até 01 de agosto
Cerrado Galeria
Goiânia | Rua 84, nº 61, Setor Sul
Entrada Gratuita