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Goiânia

Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista. 
Curadoria: Divino Sobral
26 de Setembro a 14 de Novembro

Esta exposição apresenta ao público goiano, pela primeira vez, a obra de Di Cavalcanti, artista que percorreu o século 20 atraindo os olhares por sua potencialidade criativa, pelos temas que tratava, pelas qualidades intrínsecas de sua investigação, por sua atuação ativa no circuito de arte, e, também, por sua biografia agitada e polêmica. A exposição reúne pinturas e desenhos datados entre 1925 e 1972, montando um arco de cinco décadas que permite observar como, ao longo do tempo, ele foi moldando suas características e, simultaneamente, foi modificando seu trabalho, conforme dialogava com diferentes tendências da arte moderna, sem necessariamente ser adepto a qualquer uma delas, transformando-as com seu modo singular de operar com o plano, com a forma e com a cor. Com produção longeva, o artista alterou continuamente sua maneira de trabalhar, mas se manteve fiel aos assuntos recorrentes no seu repertório. 

 A obra de Di Cavalcanti foi construída em relação direta com o espaço que o cercava e com a época em que vivia, período de modernização do país. Sobretudo, resultou da interpretação subjetiva que fazia do ambiente em que nasceu e viveu, a cidade do Rio de Janeiro, formada pelas contradições sociais e econômicas, caracterizada por paisagem exuberante e ensolarada, marcada por farta cultura corporal e intensamente atravessada pela presença afrodiaspórica. Di Cavalcanti se debruçou sobre esta realidade com seu pincel lírico e, sob influência ideológica do Partido Comunista do Brasil, a que era filiado, e do movimento de arte muralista mexicano, do qual era admirador, escolheu o povo brasileiro para ser o protagonista de sua obra, rigorosamente figurativa. 

No lirismo de Di Cavalcanti, a figura humana desempenhou papel de destaque, mormente o tema da mulher, o mais tratado no vasto conjunto de sua produção. O artista teve muitas esposas e amantes no decorrer de sua vida de boêmio hedonista, e isso refletiu em seu trabalho. Pintou mulheres de todas as classes sociais, de todas as cores de pele e em situações as mais diversas, mas ficou conhecido como o “pintor de mulatas”, devido à grande quantidade de obras em que representou essa personagem nascida no processo de mestiçagem racial no Brasil. Representando essa mulher de pele cor de bronze, de corpo opulento e sensual, com altivez, alegria e elegância, o artista fixou um ícone que respondia à necessidade de descoberta da identidade cultural brasileira pela arte aqui realizada, e por suas mãos a figura da ‘mulata’ foi elevada a símbolo de brasilidade, na contramão daqueles que pregavam ser as pessoas negras um empecilho que impedia o avanço e a modernização. 

Porém, não se pode deixar de considerar que a recepção de suas ‘mulatas’ se transformou a partir da década de 1970, quando a imagem da mulher negra foi apropriada pelas indústrias do entretenimento e turismo e empregada no processo de objetificação e fetichização do corpo feminino racializado, e, igualmente, não se pode omitir o fato de que, hoje, o termo “mulata”, por seu teor pejorativo, encontra-se revogado pelas críticas decoloniais. Portanto, diante dessas problematizações, o correto é enfocar essas mulheres bronzeadas pintadas por Di Cavalcanti como figuras afrodescendentes icônicas na história da arte brasileira, conferindo-lhes a importância de uma “Gioconda do século 20”, conforme afirmava sobre si mesmo sua modelo preferida, Marina Montini (1948–2006). 

No lirismo de Di Cavalcanti foram frequentes as naturezas-mortas caracterizadas por elaboradas composições envolvendo desde um animal doméstico, como um gato, até objetos utilitários, como garrafas e fruteiras, ou decorativos, como vasos de flores, tratados quase sempre com abundantes notas cromáticas e com ritmadas pinceladas. O artista tratou esse gênero da tradição acadêmica, focado na organização poética dos objetos que habitam o mundo, empregando diferentes estilemas da linguagem plástica vanguardista, indo da estilização e deformação de origem expressionista até a racionalização de ordem cubista. 

A obra de Di Cavalcanti, a partir da década de 1920, passou a integrar a corrente dominante do modernismo, que moderava a inovação formal, buscava o espírito nacional na arte e dedicava-se à formação de um repertório visual ancorado na realidade do Brasil. Abro um parêntese para notar que essa vocação do modernismo coadunou com a política cultural do Governo Vargas (1930–1945), interessada na formação da identidade nacional. Curiosamente, a consciência da brasilidade teve origem quando os modernistas brasileiros residiram na França, e, confrontando-se com as vanguardas da Escola de Paris, influenciadas pela arte africana e pelas artes não-europeias, perceberam que deveriam buscar em sua terra natal as fontes que necessitavam para avançar em suas trajetórias artísticas. Após retornar de Paris, onde viveu entre 1923 e 1925, Di Cavalcanti compreendeu que, para fazer uma obra moderna e significativa, tinha que encontrar-se com suas raízes, e isso implicava em abraçar o Rio de Janeiro e sua cultura popular vinda do centro, do subúrbio e do morro, mostrar seu encantamento pelo carnaval, pelo mundo do samba (herança negra), pela vida praieira, pela malemolência dos corpos encalorados e calorosos. A identidade brasileira foi encontrada por Di Cavalcanti na figura emblemática de uma mulher negra, sentada à frente de uma janela, nos costumes, conflitos e manifestações do povo. 

Di Cavalcanti, além de contribuir com sua obra, teve relevante atuação na formação do movimento coletivo que difundiu a prática da arte moderna no Brasil. Foi um dos principais articulares da Semana de Arte Moderna realizada em São Paulo em 1922, com um programa que pretendia atualizar as maneiras de fazer arte e, ao mesmo tempo, defender as características da cultura nacional. O evento comemorou o centenário da Independência, aspirando a uma linguagem moderna e propondo que o arcaico e o vernacular fossem tomados como fontes de inspiração. Dentro do processo de modernização da arte produzida no Brasil, avesso ao abstracionismo nascente no final dos anos 1940, Di Cavalcanti defendeu que o artista devia sempre conversar com a sociedade e, portanto, não poderia prescindir da linguagem figurativa, código compromissado com a interpretação da realidade. 

Divino Sobral
Curador

Lírico, brasileiro, modernista. – Di Cavalcanti
Curadoria: Divino Sobral 
Visitação: 26 de Setembro a 14 de Novembro
Cerrado Galeria
Goiânia | Rua 84, nº 61, Setor Sul
Entrada Gratuita