Brasília
Apresentada na Galeria Cerrado, esta exposição reúne mais de vinte obras, entre pinturas e esculturas, realizadas entre 1963 e hoje. Mais do que organizar uma retrospectiva, meu interesse foi construir um percurso capaz de revelar a permanência de um mesmo campo de investigação ao longo de mais de sessenta anos de produção de Claudio Tozzi. Um pensamento visual que se transforma continuamente sem jamais perder sua direção ontológica, formal e política.
O título nasce de uma analogia com a respiração. Penso a continuidade como um fluxo constante, natural e inevitável, algo que atravessa o tempo de maneira quase inconsciente, mas que, ao mesmo tempo, permanece aberto a pequenas variações, desvios e intensificações. Ao observar a trajetória de Claudio Tozzi, tive a sensação de estar diante de uma obra que nunca deixou realmente de respirar.
Atuando como um prólogo, Paz II (1963–1964), uma das obras históricas presentes na exposição, já contém muitos dos elementos que irão atravessar toda a sua produção. A fragmentação da imagem, a tensão entre figura e estrutura e a presença de uma dimensão política inscrita na própria construção visual aparecem ali de maneira inaugural e continuam a reverberar nas décadas seguintes.
Ao longo dos anos 1960, Claudio Tozzi constrói uma linguagem na qual a imagem deixa progressivamente de operar como representação direta. Multidões, astronautas e outros elementos recorrentes passam a funcionar como dispositivos de organização visual, mais próximos de sistemas de percepção do que de narrativas individuais. O interesse desloca-se gradualmente da imagem para a sua estrutura interna.
Com o tempo, esse processo torna-se ainda mais evidente. As imagens são reduzidas, reorganizadas e sintetizadas até alcançarem estruturas cada vez mais essenciais. Nos trabalhos mais recentes, o reticulado marca um momento importante dessa trajetória, quando a imagem já não depende mais da figura para sustentar sua existência.
Nas longas conversas que tive com Claudio Tozzi ao longo deste último ano, tornou-se claro como sua prática sempre esteve profundamente ligada aos processos industriais de produção da imagem. As retículas, compostas por pequenos círculos que produzem uma terceira tonalidade através da percepção do observador, derivam diretamente dos sistemas gráficos de impressão em quadricromia. Cada cor é aplicada separadamente, e é o olhar que realiza a fusão final. De certa forma, a imagem só se completa no corpo de quem a vê.
O mesmo acontece nos micromosaicos e mosaicos. Partindo de módulos industriais reduzidos e de uma paleta limitada, Claudio Tozzi reorganiza continuamente as combinações possíveis até atingir a tonalidade que procura. Existe algo profundamente arquitetônico nesse processo, mas também algo intuitivo, quase orgânico, como se a construção da imagem dependesse simultaneamente de cálculo e respiração.
A exposição procura evidenciar justamente essa continuidade. Não se trata de uma trajetória feita de rupturas, mas de um desenvolvimento contínuo no qual cada nova fase reorganiza questões que já estavam presentes anteriormente. Hoje, essa leitura encontra também uma confirmação no renovado interesse institucional por sua obra, recentemente reafirmado pela exposição Pop Brasil: Vanguarda e Nova Figuração, 1960-70, com curadoria de Pollyana Quintella e Yuri Quevedo, apresentada na Pinacoteca de São Paulo em 2025 e posteriormente no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) entre 2025 e 2026.
Esta mostra nasce de um diálogo longo e direto com o artista, desenvolvido ao longo de encontros frequentes em sua casa-ateliê no bairro do Sumaré, em São Paulo. A partir desse processo, procurei construir um percurso que não segue uma lógica cronológica, mas uma continuidade mais sutil e talvez mais profunda: a de um pensamento que permanece coerente consigo mesmo enquanto atravessa o tempo, produzindo relações constantes entre arquitetura, urbanismo, percepção e injustiça social.
Cristiano Raimondi
Uma continuidade como respiro – Claudio Tozzi
Curadoria: Cristiano Raimondi
Visitação: até 25 de julho
Cerrado Cultural
Brasília | SHIS QI 05 Chácara 10 – Lago Sul
Entrada Gratuita
Fotos: Diego Bresani