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Goiânia

Alice Lara: O voo silencioso do pássaro de fogo
Curadoria: Divino Sobral
08 de agosto a 26 de setembro

Primeira exposição individual de Alice Lara em Goiânia, O voo silencioso do pássaro de fogo apresenta um instigante conjunto de pinturas realizadas nos últimos dois anos, pondo em evidência como a artista trabalha as complexidades do Brasil contemporâneo, refletindo sobre a sociedade estabelecida na região Centro-Oeste e sobre aspectos da cultura sertaneja produzida pela indústria cultural como expressão subjetiva do agronegócio.

A pintura de Alice Lara se constitui de maneira singular. Por um lado, é concisa, focada no que é essencial à construção da obra, e, de outro, mostra-se prolixa, entregue ao ato de pintar, é romântica e pulsional, enlaçada com sentimentos que se revelam pelo manuseio dos meios expressivos. Ocupa o espaço bidimensional com composições desafiadoras que valorizam grandes áreas vazias do fundo, algumas vezes tratadas apenas com uso de um médium e sem adição de qualquer camada de tinta, escancarando a natureza do suporte na materialidade crua da tela, tornada lugar de existência da pintura. Consciente de que a pintura é um corpo, manipula a densidade e o ponto de diluição das tintas entre carne, sangue e pele. Concede um temperamento firme às pinceladas enérgicas que, com a vivacidade do seu domínio técnico, transmitem a alta voltagem expressiva de seus gestos marcantes. Atualizando uma questão de origem modernista associada à questão da identidade, trata como matéria importante o problema da cor local cerratense, predominando na paleta as tonalidades secas e terrosas, e, em raros momentos, os verdes iluminados. Eloquente, solar e certeira, sua pintura é alimentada por um fértil imaginário sertanejo composto por chapéu, boné, fivela, caminhonete, motocicleta, cavalo, boi e terra vermelha, signos impregnados de masculinidade que denotam dominação e propriedade.

Neste conjunto é patente a relação das obras com o contexto da Música Sertaneja, gênero ouvido pela artista desde a infância, vivida na área rural de Vicente Pires, nos arrabaldes de Brasília. A começar, o título da exposição faz referência à música Pássaro de fogo, composição de Paula Fernandes lançada em 2009, instaurando assim a perspectiva feminina e questionando a dimensão do papel desempenhado pelas mulheres dentro dos diferentes campos da cultura sertaneja e dentro do regime de poder desenvolvido pelo agronegócio. Por meio das citações das músicas sertanejas, Alice Lara, de maneira original e metafórica, toca em assuntos como amor, paixão, machismo, domínio do homem sobre a mulher e feminicídio, entre outros que habitam o universo patriarcal das sociedades ruralistas.

No conjunto de obras aqui reunidas, encontram-se representados somente homens. São trabalhos que revelam uma mulher esmiuçando, com olhar ao mesmo tempo crítico e poético, o universo masculino construído pelo código de valores do agronegócio e pela estética agropop/sertaneja, representando a dinâmica de vida do rei do gado, um homem branco, heterossexual, abastado economicamente, que cavalga, dirige caminhonetes possantes e motocicletas velozes, protagonizando um estilo de vida marcado por ostentação, aventura, diversão, competição e paixão. Na elaboração formal e simbólica da imagem do rei do gado, a figura tradicional do fazendeiro foi envernizada pela roupagem contemporânea do empresário do agronegócio, e a do antigo peão foi transformada pelo cowboy ou agroboy.

A música sertaneja surgiu das transformações produzidas no corpo da música caipira, gênero cuja origem remonta ao período colonial e que foi gravado pela primeira vez na década de 1920. A transformação da música caipira em sertaneja ocorreu entre as décadas de 1960 e 1980, e coincidiu com a implantação da Revolução Verde, responsável por instalar o modelo do agronegócio na produção agropecuária nacional, provocando a tecnificação do campo, o aumento do êxodo rural e o crescimento das cidades. Em seu processo de modificação estética, chamado de modernização, ocorreu o abandono dos temas ligados ao campo, foi assumida a influência do estilo country estadunidense, houve aderência ao repertório romântico e ao emprego de instrumentos elétricos. Urbanizada, a música sertaneja tornou-se consumida pelo rei do gado e pelo novo peão, identificado como Cowboy do asfalto, nome do disco lançado em 1990 pela dupla Chitãozinho e Xororó.

Os títulos de uma parcela das obras fazem referências ao rei do gado, figura mítica que nomeia tanto uma moda de viola quanto o primeiro disco da tradicional dupla Tião Carreiro e Pardinho, lançado em 1961. O Rei do Gado é também título da telenovela de autoria de Benedito Ruy Barbosa, exibida pela Rede Globo entre 1996 e 1997, momento em que disparou o consumo de música sertaneja. O tema de abertura da novela cantava “Sou desse chão onde o rei é peão”, apontando a conexão entre o homem e a terra explorada e exaltando o enriquecimento e o empoderamento gerados pelo agronegócio. Alice Lara, a seu modo, transforma em pintura as narrativas desse reinado.

A exposição também chama atenção para os animais, que participam intensamente da vida e do imaginário das sociedades rurais. São víveres úteis enquanto animais de corte ou de força de trabalho, mas também representam poderio econômico e prestígio social, explicitados, por exemplo, na combinação cavalo-cavaleiro. Para abordar a nobreza do cavalo, vale destacar que o pintor Pedro Américo, com a finalidade de engrandecer e conferir pompa à cena representada na obra O grito do Ipiranga (1888), pintou cavalos em vez de mulas, animais que eram usados para longas viagens. Vale lembrar, também, que as estátuas equestres são provas vivas da potência da figura desse animal na composição de um símbolo de heroísmo. A representação de animais é o assunto mais longevo pintado por Alice Lara, que, ao longo de sua trajetória, já representou animais selvagens livres na natureza, aprisionados em zoológicos ou animais domésticos. Na exposição constam algumas cenas equestres que levam a pensar tanto sobre a apropriação da figura do animal pelo agronegócio quanto na proximidade em que convivem homens e animais. Há também algumas representações de bois, animais historicamente atrelados à formação econômica da região Centro-Oeste, e que constituem um emblema da sociedade rural desta parte do Brasil.

Divino Sobral

Curador

O voo silencioso do pássaro de fogo – Alice Lara
Curadoria: Divino Sobral
Visitação: até 26 de setembro
Cerrado Galeria
Goiânia | Rua 84, nº 61, Setor Sul
Entrada Gratuita

Fotos: Diego Bresani