Brasília
Exposição coletiva
O título dessa exposição foi despertado pela música de Anelis Assumpção, que convida a um “abissal / animal / lacrimal / ancestral / pineal / abismal mergulho interior”. Isso porque, das curiosidades sobre os caminhos das palavras na língua que falamos, um caso que me leva a muitas elucubrações é o desses dois adjetivos — abismal e abissal, com uma mesma raiz grega, ábyssos (sem fundo) —, que se mantêm como sinônimos — no sentido de imenso, profundo, infinito —, ao mesmo tempo em que se prolongam em zonas de significado distintas, cheias de nuances e possibilidades próprias. Na geologia, o abismo acabou se restringindo à superfície terrestre: grandes buracos, falhas colossais e depressões do relevo; enquanto a zona abissal passou a se referir às profundezas oceânicas, com pressão extrema e temperaturas baixíssimas, em uma complexidade sobre a qual a humanidade quase nada conhece, na escuridão. O abismal é algo aterrador, causador de assombro. Já o abissal se trata do que é insondável e misterioso. Popularmente, ambas preservam uma escala do sem–fim, daquilo cujos limites nem a luz nem a consciência alcançam.
Talvez reconfigurando o sublime ou o nada que o século XVIII europeu formatou para apaziguar as tensões entre racionalidade + universalidade + cultura versus subjetividade + fragmentação + natureza, encontramos recentemente a teorização decolonial sobre o pensamento ocidental moderno como projeção de um mundo dividido por “linhas abissais” que separam radicalmente aquilo que pode ser reconhecido como real daquilo que é produzido como inexistente, construindo sentidos e hierarquias entre Velho Mundo e Novo Mundo. O Brasil estaria do lado de lá desse corte sem fundo. Aqui, podemos nos perguntar o que seria habitar essa zona interior desconhecida, observar seus contornos sem ter que apaziguar as contradições tateadas na escuridão, as sombras e maravilhas que aparecem à luz de uma pequena sonda de mergulho.
Cada obra abrindo-se continuamente a futuros e outros mundos, sem deixar de reverberar o passado, o presente, as memórias, aspectos do entorno, das passagens, dos sentidos conflitantes entre modernidade e tradição. Nesse abismal…abissal mergulho interior, há diferentes dimensões da existência para explorar: Manuela Costa e Silva e Raquel Nava se lançam na visceralidade das figurações animais e híbridas; Abraão Veloso, Estevão Parreiras e Rebeca Miguel se aprofundam em introspecções afetivas e metafísicas; Ana Hortides, Isabela Seifarth e Talles Lopes vão se infiltrando em camadas da arquitetura que reverberam na vida comum e se rearranjam em outros pesos e outras medidas; Walter Pimentel encara as aparições do mundo espiritual; Genor Sales e Tor Teixeira adentram as paisagens do trabalho em suas relações com os recursos da água e da terra; enquanto Raylton mergulha em uma busca sobre a essência das formas geométricas e acaba se deparando com uma coleção infinita de máscaras com suas próprias narrativas.
Esta exposição propõe um olhar sobre o Brasil mais-que-profundo, um Brasil-mundo-multiverso que se elabora no interior de um abismo vertiginoso das imaginações, nas zonas abissais da ficção pessoal-comunal de corpos e trajetórias que o compõem e o observam de diferentes maneiras. São obras em diversas linguagens que encarnam poéticas singulares, um conjunto heterogêneo, mas que entendo como convergente quando pensamos o interior como algo que não se localiza, não se esgota em si, acontece no movediço, naquilo que se vive, se carrega e, ao mesmo tempo, desestabiliza qualquer noção fixa de origem. Nas obras aqui reunidas de 12 artistas, encontramos um efeito de mise en abyme: diferentes interiores se implicam mutuamente, como narrativas que contêm outras narrativas dentro de si, e, ao emergirem, ampliam-se e multiplicam-se as aberturas.
Abismal…Abissal – exposição coletiva
Curadoria: Tálisson Melo
Visitação: até 25 de julho
Cerrado Cultural
Brasília | SHIS QI 05 Chácara 10 – Lago Sul
Entrada Gratuita
Fotos: Diego Bresani